Eu me formei médico na Escola Paulista de Medicina (EPM) e, mais tarde, fiz mestrado e doutorado em Psiquiatria na UNIFESP. Quando olho para trás, percebo que a minha carreira nunca foi “sobre uma substância” — foi sempre sobre a mesma pergunta, repetida em diferentes cenários: o que faz uma pessoa atravessar a linha entre o uso, o hábito, o jogo, a compulsão… e a perda de controle? E o que, de fato, ajuda quando essa perda de controle já virou rotina, vergonha, dívida, segredo, risco?
Ao longo dos anos, eu aprendi que dependência e compulsão não se explicam por um único fator. Elas são um encontro: vulnerabilidade individual, disponibilidade do estímulo, repetição, reforço, ansiedade, promessa de alívio, e uma cultura que, muitas vezes, normaliza o excesso enquanto ele ainda parece “funcional”. Foi assim com álcool. Foi assim com cocaína. E, hoje, eu vejo o mesmo roteiro se repetindo com apostas e jogos online — mudam as telas, mudam as narrativas publicitárias, mas o mecanismo psicológico é dolorosamente familiar.
Eu construí minha vida acadêmica e clínica na UNIFESP, no Departamento de Psiquiatria, ligado ao Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (PROAD). Ali, eu aprendi a fazer algo que pouca gente entende por fora: criar um serviço que não seja uma vitrine, mas um organismo vivo. Um serviço que atende, forma, pesquisa, ajusta protocolo, discute política pública e, no fim do dia, ainda precisa acolher gente que chega destruída — e, mesmo assim, encontra uma fresta para recomeçar. Minha atuação no PROAD sempre caminhou com esse tripé: assistência, ensino e pesquisa.
| Período | Marco | Como isso me marcou | Fonte |
|---|---|---|---|
| 1978 | Graduação em Medicina (EPM) | Base clínica e o começo do olhar para sofrimento “sem glamour”. | BV FAPESP |
| 1991 | Mestrado em Psiquiatria (UNIFESP) | A ciência como método — e não como distância emocional. | BV FAPESP |
| 1997 | Doutorado em Psiquiatria (UNIFESP) | Estruturar pesquisa aplicada: instrumentos, comorbidades, cuidado real. | BV FAPESP |
| 1993 → | Criação de ambulatório para jogadores (PROAD/UNIFESP) | Entender jogo como transtorno, não como “falta de vergonha”. | Revista Pesquisa FAPESP |
| Carreira | Coordenação do PROAD | Fazer assistência, prevenção e ensino sob ótica de Redução de Danos. | BVS (PDF) |
Eu costumo dizer que o PROAD me ensinou duas coisas ao mesmo tempo: humildade e precisão. Humildade, porque dependência é um campo onde arrogância clínica cobra juros — o paciente some, recai, mente, volta, cai de novo, e você precisa manter o cuidado sem virar fiscal moral. Precisão, porque, sem método, tudo vira “opinião”, e opinião é uma forma elegante de abandonar o paciente quando o caso é difícil.
Foi nesse espírito que eu e minha equipe defendemos, ao longo do tempo, modelos de cuidado baseados em Redução de Danos: não como “passar a mão”, mas como reconhecer que existe sofrimento mesmo quando a abstinência não está disponível hoje. Se eu ignoro isso, eu perco a chance de reduzir risco, de construir vínculo, de prevenir morte, infecção, violência, colapso financeiro, suicídio. A Redução de Danos, para mim, sempre foi isso: um caminho clínico e ético para manter a pessoa viva e em contato com cuidado, até que outras mudanças se tornem possíveis.
Como eu passei a olhar o jogo e o “universo das apostas” com seriedade clínica
Muita gente acha que minha relação com o tema do jogo começou “porque virou moda falar de bets”. Não. Ela é antiga. Em 1993, eu criei no PROAD/UNIFESP o que é mencionado como o primeiro ambulatório brasileiro especializado em tratar jogadores.
Por que eu fiz isso? Porque eu já via, na prática, o mesmo padrão que eu via em substâncias:
- a escalada do estímulo (a pessoa precisa jogar mais, apostar mais, buscar mais risco para sentir o mesmo “efeito”);
- a reorganização da vida em torno do comportamento (o jogo vira o eixo e o resto vira acessório);
- a mentira como sintoma (não como “maldade”, mas como tentativa desesperada de continuar jogando sem perder os vínculos);
- a tolerância e a compulsão como algo que cresce no corpo e na mente;
- o pós-jogo — a ressaca emocional, a vergonha, o medo, a tentativa de “recuperar” no próximo lance (um mecanismo que destrói finanças e saúde mental).
Quando a internet e os aplicativos entraram em cena, esse cenário ganhou um acelerador. Eu não precisei “mudar de opinião”; eu precisei reconhecer que o ambiente ficou mais agressivo. O jogo, antes, tinha fricção: deslocamento, horário, limite físico. A aposta online tira fricção, coloca estímulo na palma da mão, e dá a falsa sensação de controle — exatamente o que a compulsão adora.
E aqui entra a minha posição, com toda clareza: eu não trato apostas como um tema “de entretenimento” quando ele entra no consultório e no serviço público como sofrimento e adoecimento. Para mim, o debate sobre bets não é só moral; ele é saúde pública.
Eu participei, como coautor, de um artigo que discute jogo patológico e consequências para a saúde pública, abordando prevalência, custos sociais e econômicos, relação com legalização e impactos — inclusive em desfechos graves. Isso é central: quando um país amplia oferta e publicidade, ele precisa também ampliar prevenção, rastreio e tratamento. Se não faz, empurra o problema para as famílias e para o sistema de saúde — e depois finge surpresa.
O que eu digo e o que eu faço, na prática, quando o assunto é hembling/apostas
Eu posso resumir meu posicionamento em três frases que norteiam minha conduta clínica e pública:
- Apostar pode ser um comportamento, mas o transtorno do jogo é uma doença.
- Quanto maior a disponibilidade e a exposição, maior o risco populacional — e isso não é opinião, é lógica epidemiológica.
- Tratamento precisa existir antes do colapso — e isso exige triagem, educação e rede.
Na prática, isso se desdobra em ações concretas:
- Eu defendo triagem e identificação precoce em serviços de saúde mental e dependências. Muitos jogadores problemáticos não chegam dizendo “eu sou dependente”; eles chegam dizendo “estou ansioso”, “não durmo”, “estou endividado”, “minha família vai me deixar”. Se você não pergunta sobre apostas, você não encontra a causa.
- Eu defendo integração com cuidado de comorbidades. Jogo patológico raramente vem sozinho: ele se soma a depressão, ansiedade, impulsividade, uso de álcool, e, em alguns casos, risco suicida. O tratamento que ignora isso é um tratamento que fracassa por cegueira.
- Eu defendo limites ambientais: publicidade responsável, mecanismos reais de autoexclusão, travas de depósito, transparência sobre risco e probabilidade, e políticas que não sejam “apenas arrecadatórias”.
- Eu defendo que as bets sejam tratadas como fator de risco social. Quando o estímulo é massivo e a promessa é “dinheiro fácil”, você atinge com força quem tem menos margem financeira e emocional para perder. Isso produz adoecimento em cadeia: dívida, violência doméstica, evasão escolar, perda de emprego, isolamento.
- Eu defendo que o Estado e a sociedade reconheçam o custo. Se o tema é legalização/mercado, o tema também precisa ser: financiamento de prevenção e tratamento, formação profissional, pesquisa e monitoramento contínuo.
| Instituição | Papel / vínculo | Eixo do trabalho | Fonte |
|---|---|---|---|
| UNIFESP / EPM (Psiquiatria) | Docência e pesquisa | Psiquiatria, dependências, psicometria | BV FAPESP |
| PROAD / UNIFESP | Coordenação | Assistência, prevenção, ensino; Redução de Danos | BVS (PDF) |
| PROAD / UNIFESP | Criação de ambulatório para jogadores (1993) | Transtorno do jogo como questão clínica e de saúde pública | Revista Pesquisa FAPESP |
| Ministério da Saúde (Brasil) | Consultorias | Políticas e estratégias em saúde | BV FAPESP |
| SENAD (MJ) | Consultorias | Políticas sobre drogas | BV FAPESP |
O que eu aprendi atendendo jogadores (e por que isso importa agora)
Eu vi, repetidas vezes, o paciente chegar com um discurso que parece “apenas financeiro”. E, em poucos minutos, fica claro que é emocional, existencial, familiar. A aposta vira um lugar onde a pessoa se sente competente por segundos — e depois volta para a vida real com mais culpa e menos recursos.
Eu também vi como o ambiente agrava. Quando o jogo está em todo lugar — anúncio, influencer, patrocínio, “freebet”, bônus, notificação — você cria um ecossistema que empurra a repetição. E compulsão é repetição reforçada. Por isso, eu insisto: não basta tratar o indivíduo; é preciso discutir o ambiente.
Quando pesquisadores e revistas científicas discutem transtorno do jogo, eles ressaltam custos sociais e econômicos, relação com legalização e impacto em saúde pública. Eu concordo com isso porque eu vejo o custo no corpo do paciente: insônia, ansiedade, irritabilidade, crises de pânico, recaídas em álcool para anestesiar a culpa, isolamento, ideação suicida em casos graves. Não é raro o “eu só queria sumir” aparecer na consulta — e isso exige seriedade.
Minha produção e o fio que conecta tudo
Eu publiquei e colaborei em trabalhos que passam por diferentes recortes: psicometria, padrões de consumo, risco, prevenção, Redução de Danos, saúde coletiva. E, para mim, isso não é dispersão: é coerência com a clínica. Porque o sofrimento humano não vem em caixinhas.
Quando eu coassino um artigo de retrospectiva institucional do PROAD, eu estou dizendo: “isso funciona quando vira prática sustentada, por anos, com método e vínculo”. Quando eu apareço em discussões sobre jogo patológico, eu estou dizendo: “isso não é curiosidade; isso é uma urgência”.
| Ano | Título / tema | Onde | Link |
|---|---|---|---|
| 2008 | Pathological gambling / Jogo patológico e consequências para a saúde pública (coautoria) | Rev. Saúde Pública | PubMed • RSP (USP) |
| 2020 | Redução de danos no PROAD: trinta anos de experiência institucional (coautoria) | BIS / SES-SP | Página do artigo • PDF (BVS) |
| 2006 | Redução de danos no contexto escolar / promoção de saúde (coautoria) | Ciência & Saúde Coletiva | SciELO |
| 2008 | Referências biográficas e produção (perfil acadêmico) | Base institucional | BV FAPESP |
O que eu quero ver o Brasil fazendo — se a conversa sobre bets for séria
Eu não sou ingênuo: apostas movimentam dinheiro, e isso cria forças políticas e econômicas. Mas eu insisto que não existe debate maduro sobre jogo sem incluir prevenção e tratamento. Quando uma publicação como a Revista Pesquisa FAPESP descreve os efeitos nocivos dos jogos online e relembra a criação do ambulatório para jogadores no PROAD, ela está apontando para uma realidade: o problema não é hipotético. Ele já chegou, já cresceu, e a resposta não pode ser só “campanha pontual”.
O que eu defendo, com um pé na clínica e outro na saúde pública:
- monitoramento epidemiológico contínuo (sem dados, vira palpite);
- protocolos de triagem em atenção primária e saúde mental;
- formação profissional (médicos, psicólogos, assistentes sociais, equipes do SUS);
- mecanismos reais de proteção no ambiente digital (autoexclusão, limites, transparência);
- responsabilização da publicidade (especialmente quando o alvo é vulnerável);
- pesquisa aplicada para entender perfis e trajetórias no Brasil, não importando tudo de fora como se fossem realidades idênticas.
Eu aprendi cedo que a compulsão adora silêncio. E a melhor forma de quebrar o silêncio é chamar o fenômeno pelo nome: transtorno do jogo, dependência comportamental, adoecimento — e oferecer caminhos concretos de cuidado. Essa é a parte que me interessa: menos espetáculo, mais rede; menos julgamento, mais intervenção.
O que me formou antes de eu “virar pesquisador”
Eu nasci e cresci num Brasil em que sofrimento psíquico era frequentemente tratado como fraqueza, e dependência como falta de caráter. Talvez por isso eu tenha me apegado tão cedo à ideia de que a medicina e a psiquiatria precisam ser ferramentas de dignidade. Quando me graduei em Medicina na Escola Paulista de Medicina, em 1978, eu ainda não tinha um “tema” definitivo — eu tinha uma inquietação: como oferecer cuidado a pessoas que o mundo prefere ignorar? Essa pergunta ficou comigo.
Depois, no mestrado (1991) e no doutorado (1997) em Psiquiatria na UNIFESP, eu consolidei um compromisso com método. Não método como frieza, mas como responsabilidade: se eu vou orientar uma política pública, treinar uma equipe, defender uma estratégia clínica, eu preciso sustentar isso com dados, experiência acumulada e reflexão crítica. (BV FAPESP)
O PROAD como “casa” e como laboratório humano
Ao longo da carreira, eu me vinculei ao Departamento de Psiquiatria da UNIFESP/EPM e ao PROAD. O PROAD virou mais do que um serviço: virou um lugar onde eu pude conciliar o que muita gente separa à força — assistência, ensino e pesquisa. Eu sempre acreditei que um ambulatório de dependência não pode ser uma sala de espera infinita com um protocolo genérico. Ele precisa se adaptar a uma realidade que muda: drogas mudam, o mercado muda, a internet muda, a vulnerabilidade social muda. E o cuidado precisa acompanhar.
Foi nesse processo que eu aprendi algo muito simples e muito duro: o paciente quase nunca chega contando a verdade inteira. Não porque ele seja “mentiroso”, mas porque ele está com medo. Medo de ser julgado, punido, abandonado, ridicularizado. Se você entra numa consulta como juiz, você perde o paciente. E quando você perde o paciente, você perde a chance de prevenir o que vem depois: recaída grave, dívida, violência, depressão, tentativas de suicídio.
Por que eu nunca tratei compulsão como um “assunto menor”
Muita gente acha que jogo, aposta e hembling são “menos graves” do que álcool e drogas. Eu nunca vi assim. Eu vejo o mesmo roteiro clínico: escalada, perda de controle, tentativa de recuperar prejuízo, mentiras, conflitos familiares, ansiedade, insônia — e, em alguns casos, colapso emocional completo. É por isso que, ainda nos anos 1990, eu já me envolvia com a ideia de olhar o transtorno do jogo como um problema real de saúde, e não como anedota social. E é por isso que me interessa tanto o debate atual sobre bets: porque ele mistura alta disponibilidade, publicidade agressiva e vulnerabilidade, uma combinação historicamente perigosa.
Quando eu escrevo, pesquiso ou dou aula sobre isso, eu tento manter uma linha simples: entretenimento é uma palavra confortável; sofrimento não é. Quando o jogo vira sofrimento, ele precisa virar cuidado — e cuidado, para mim, envolve triagem, tratamento, prevenção e uma discussão séria sobre ambiente e responsabilidade.
O que eu ainda considero minha missão
Eu não tenho a ilusão de “resolver” dependência. Eu tenho a convicção de que dá para reduzir danos, ampliar acesso, qualificar equipe e criar caminhos de recuperação que não humilhem a pessoa. No fundo, eu trabalho para que a clínica seja um lugar onde alguém, mesmo em queda, possa ouvir: “você não é um caso perdido — você é um caso humano.”E isso, para mim, é biografia em movimento: não um currículo, mas uma forma de estar no mundo.


